domingo, 1 de Fevereiro de 2009

Os Poemas Homéricos

« E, além disso, o maior de todos os monumentos, que paradoxalmente surge desta época obscura: os poemas Homéricos. » 1

Nesta recensão irão ser abordados os dois marcos fundamentais na construção da cultura e da literatura ocidental, a Ilíada e a Odisseia. Para isso, iremos recensear alguns capítulos do livro de Maria Helena Rocha Pereira.1
Sendo os primeiros livros da literatura europeia são também os grandes livros referencia de toda a cultura ocidental.
Vinte e oito séculos depois estas duas obras mantém a sua capacidade esmagadora e comover e perturbar.2
A origem da literatura assenta na palavra poética. Primeiramente orais, as formas poéticas formam a base da literatura primitiva séria: textos religiosos, epopeias, genealogias. De inicio principalmente vocacionada e relacionada com acontecimentos extraordinários ou sagrados, a poesia grega era considerada uma forma de inspiração divina, enquanto a prosa era reservada a questões mais triviais e normais.
Podemos afirmar o extraordinário papel que cabe ao receptor/leitor pois a herança que nos cabe ao transmitir a cultura ocidental por vezes passa desapercebida.
Podemos dizer que no século VII antes de Cristo, no fim de uma longa tradição épica oral, surgem estes cantos de sangue e lágrimas, em que os próprios deuses e homens são feridos e os modelos e exemplos são construídos.

A Questão Homérica

Falar dos Poemas Homéricos é falar da questão da sua autoria e data de composição. Sobre a autoria existem autores que defendem que os poemas tiveram autores diferentes ( os analíticos) e os autores que defendem um só autor ( os unitários).
Sobre a data de composição dos poemas existem muitas duvidas: sabemos hoje que os textos são da época micénica e sobre heróis micénicos. Esta teoria é reforçada pela referencia no canto X da Ilíada a um ornamento micénico.
A repetição de versos inteiros foram fruto de uma tradição oral. Esses epítetos eram condicionantes da memorização e da métrica.
Relativamente à historicidade da Ilíada ela sempre foi posta em causa mas diversas escavações no século XIX e já no século XX demonstraram a autenticidade de muitos dos
lugares homéricos. Referencia à escavações de H. Schilieman em 1871 e as de Korfmann que em 1987 deu por encerrada a questão da localização de Tróia ao não só localizá-la mas provar alguns dos acontecimentos históricos referidos nos Poemas Homéricos.


Os Poemas Épicos

Os poemas épicos são longos textos baseados numa métrica bem definida, o chamado hexâmetro dactílico; um pé dactílico é composto de três sílabas, longa-breve-longa; o hexâmetro é apenas uma medida de seis pés.
Estes poemas cantaram lendas tradicionais chamadas ciclos ou epopeias, que continham episódios emblemáticos da história do povo grego. Muitos destes episódios mesmo tendo uma base real eram sempre abordados numa perspectiva mitológica.
Poemas épicos como a Ilíada e a Odisseia pertencem ao ciclo troiano. As lendas tradicionais referidas exploram e dissertam sobre os momentos chave da História de um povo e tentam responder a muitas questões de natureza existencial e escatológica.
As epopeias clássicas foram construídas à volta de personagens heróicas e onde os seus actos e principalmente as suas escolhas serviram de modelo e referencia cultural e cívica em autênticos exemplos modelares de vida. Os ciclos épicos cobrem toda a história mitológica de cidades como Tebas ou Micenas e contam os percursos heróicos de Hércules, Teseu, Perseu ou Jasão.
A literatura grega começa com as duas grandes epopeias do ciclo troiano, a Ilíada e a Odisseia. Estas obras foram passadas da oralidade à escrita cerca de 750 aC. Quer elas sejam ou não obra de um ou múltiplos génios, o nome de Homero é desde sempre a referência literária ocidental por excelência. O debate sobre estes textos épicos é ainda actual e podemos afirmar que são neles que nasce a literatura ocidental.
Assim, para compreender toda a cultura grega é necessário desde logo ler estas duas magnificas obras.


A Ilíada

Este primeiro Poema Homérico é de assunto limitado: a cólera funesta de Aquiles. Depois de uma breve introdução somos lançados “in media res”, isto é, no meio dos acontecimentos.. O nome Ilíada remete-nos para Ilíon ( Tróia). Em 16000 versos é-nos possível revisitar uma guerra de muitos anos, apesar de tudo se passar em apenas 50 dias, dos quais apenas 14 dizem respeito à acção . No entanto, os condicionantes do passado e das crenças mitológicas irão marcar todo o poema.
A Ilíada desenrola-se no décimo ano da guerra de Tróia. O texto começa pela querela que opõe o chefe dos gregos Agamémnon e o herói Aquiles. Este retira-se da batalha que provoca a derrota dos gregos contra os troianos liderados por Heitor.
Não obstante todos os pedidos, este ultimo recusa retomar o combate mas para que os gregos não percam a face e autoriza o seu amigo Pátroclo a combater por si. Heitor mata Pátroclo e Aquiles, retoma o seu lugar e o combate numa fúria sangrenta. Aquiles mata Heitor e profana o seu cadáver que provoca a vinda da mãe enviada pelos deuses que, em conjunto com o pai de Heitor, o rei Príamo, suplicam a Aquiles que termine tal profanação.
Aquiles aceita, enquanto o rei Príamo leva o cadáver do filho para exéquias dignas de um herói. O destino e a morte, a responsabilidade, o valor da vida a honra, a glória, a amizade e o amor estão perfeitamente ligados nesta obra extraordinariamente bela.
Verificamos que só há um fio condutor e uma só acção, que é retardada até ao fim. O discurso narrativo alterna com o discurso directo ( mais de metade dos versos).
De entre as figuras de estilo presentes na Ilíada a mais emblemática é a símile ou comparação que fornece a paisagem colorida à narrativa.
O contraste é uma das características homéricas e como tal muito presente na Ilíada. Este recurso poético é exemplificado na dicotomia guerra vs paz.
Apesar de haver muitas marcas de técnica e tradição oral pode-se hoje afirmar que a Ilíada foi concebida por escrito.3
Herberto Helder lembrou-nos “ a escrita suprema de imaginar por músicas as coisas; não estaria ele a lembrar-se da Ilidia?

A Odisseia

A Odisseia pertence à categoria das epopeias apeladas Nostoi ou Regressos que conta o regresso dos heróis gregos após a guerra de Tróia. É um poema de aventuras, das múltiplas histórias que excitam a atenção do ouvinte, e do espírito aberto a todas as curiosidades de “Ulisses dos mil artifícios” (…) 1.É a história de Ulisses, rei de Ítaca, que no seu regresso a casa com os seus homens vai viver uma série de aventuras fantásticas nomeadamente uma viagem ao país dos mortos. Azar e más decisões custam-lhe o seu barco e deixam-no naufragado e prisioneiro da ninfa solitária Calipso na sua ilha. Mas os deuses apoiados por um bom povo de marinheiros ajudam-no a regressar a casa onde encontra a sua mulher Penélope, o seu filho Telémaco e toda a sua criadagem ameaçados por um grupo de pretendentes que consideravam Penélope já viúva e assim pronta a casar novamente. Disfarçado de mendigo, Ulisses conspira com o seu filho e com a ajuda de Athéna massacra todos os pretendentes e reencontra Penélope.
Mito, epopeia e lenda misturam-se numa história inquietante e por vezes extremamente humana nas escolhas e observações dos heróis, nas suas responsabilidades e sobretudo na sua perseverança.
Ulisses é uma figura aquém as circunstancias, e não da sua própria natureza, conferindo-lhe uma dimensão heróica. (…) que determina porque se tenha sempre projectado em Ulisses a essência do Homem Mediterrâneo, logo, pela cultura, do Homem Ocidental.4
Todas as minhas personagens são como Ulisses, são soldados perdidos em território inimigo e num mar hostil ( Arturo Pèrez-Reverte)5.
Foi Proust que nos revelou que toda as emoções imediatas da contemporaneidade estão todas contidas nas remotas personagens homéricas dando-lhes uma dimensão Universal.

A comparação entre os dois poemas

Podemos afirmar que sendo muitas as semelhanças também muitas são as incongruentes diferenças dando um pouco de força aos analíticos que defendem uma autoria diferente para os dois poemas. Apesar dos deuses serem os mesmo a sua interacção com o Homem alterou-se com um afastamento, na Odisseia, do carácter humano desses mesmos deuses incorporando-se num realidade mais abstracta e mitológica.
Na Odisseia são pela primeira vez abordadas e assumidas as noções de culpa, castigo e de justiça.
Todas as grandes diferenças detectadas na análise dos dois poemas fazem-nos acreditar que Homero escreveu a Ilíada na juventude e a Odisseia já na velhice.


A concepção da Divindade nos Poemas Homéricos

Actualmente ainda paira a duvida se a origem da mitologia grega está em Homero e mesmo em Hesíodo ou eles apenas descrevem uma realidade que já existia.
Heródoto de Halicarnasso, o grande pai da História era um dos que, à semelhança de Platão, o afirmava categoricamente.
O panteão grego é definitivamente ligado ao panteão micénico e mesmo indirectamente ao minóico o que faz crer na evolução quer das divindades quer da origem delas próprias.

As divindades homéricas são luminosas e antropomórficas o que, comparativamente ás religiões existente até então, deram aos gregos uma absoluta e incontestável superioridade teológica.
No entanto a noção de eternidade das divindades só aparece mais tarde em Platão e Aristóteles.
Temos então que, naturalmente, o homem conjectura a actuação divina sempre perante factos enigmáticos e obscuros. Na Odisseia a evolução perante os desígnio dos deuses é clara pois assume-se o cumprimento da justiça terrena pela intervenção divina.


Referências Bibliográficas :

1 MARIA HELENA,ROCHA PEREIRA (2006) : « Estudos de História da Cultura Clássica », Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian
2 LOURENÇO, FREDERICO (2003) : In Introdução « Ilíada », Lisboa, Livros Cotovia
3 BOUVIER, DAVID (2002) : « Le Sceptre et la Lyre », Grenoble, Jérôme Millon
4 LOURENÇO, FREDERICO (2003) : In Introdução « Odisseia », Lisboa, Livros Cotovia
5 Publico, Suplemento Mil Folhas, 2-11-2002

2 comentários:

Anónimo disse...

vaitoma no cú

Anónimo disse...

Tem gente tão estúpida que não sabe sequer o básico da língua portuguesa para falar(ou xingar). Aliás, não cabe aqui essa estupidez... Texto muito bom sobre Homero e suas obras, parabéns!