segunda-feira, 28 de maio de 2007

Albert Camus, a revolta pelo absurdo

«Que voulez-vous, je ne m`intéresse pas aux idées, moi, je m´intéresse aux personnes » Les Justes

Do desporto e do futebol em particular, Albert Camus reteve a lição de que nem sempre tudo corre como esperamos e que a bola nem sempre vai parar onde queremos.

De origens bastante humildes, a sua evolução como ser humano, é também, uma excepção já que perante um meio adverso e hostil, o seu caminho poderia ter sido outro. Da miséria social e intelectual ( un vrai voyou pied noir) que marcou o seu ambiente de infância na Argélia, ao prémio Nobel com apenas 44 anos, o caminho foi sempre pelo lado do inesperado, da surpresa, do fulgor de uma carreira e de uma vida terminada abruptamente de forma absurda por um acidente de viação.

Foi um amante da vida, do sol e da beleza, sem nunca esquecer a sombra e o lado negro da vida.

Sempre mais atento às misérias do mundo, do que aos focos de uma vaidade universitária e intelectual, Camus estava sempre ali, longe e distante, sempre em risco de uma solidão por vezes querida e assumida.

Defensor da verdade enquanto essência da vida, foi por esta característica que chocou com uma certa cegueira de alguns intelectuais seus contemporâneos. O futuro deu-lhe razão e hoje Camus é sem dúvida o autor francês mais lido e conhecido em todo o mundo, nomeadamente através do seu emblemático e enigmático romance "O Estrangeiro".

Apesar de amante da vida, a morte, a dor, a tentação do nada e do absurdo tornaram-se em questões essenciais, que iriam caracterizar todo o seu pensamento.

Como poderemos definir Camus, o seu pensamento e a sua filosofia?

Jean-Paul Sartre, logo após a publicação de " O Estrangeiro" definiu o seu pensamento como moralista e colocou-o a par dos pensadores moralistas do séc. XVII, devido à sua escrita aplicada e ao recurso constante a aforismos.

Será que Albert Camus não seria mais um filósofo do que um escritor?

Negligenciado por Sartre como um aluno mal comportado, o seu pensamento depressa ultrapassou a catalogação primária de existencialista.

Verdadeiro " Filósofo do Absurdo" o seu caminho distancia-se definitivamente dos existencialistas com a publicação do "O Mito de Sísifo", contra os quais o livro foi escrito.Com uma "sensibilidade absurda" ímpar, foi a seguir rotulado de niilista militante.

Albert Camus respondeu com uma teoria da revolta como valor criativo.

Albert Camus, pensar a revolta

Estudo sobre o pensamento e a filosofia de Camus

A revolta do bom senso e da justa medida

Intelectual "engagé" a História acabou por lhe dar razão, quer no seu combate contra todo o tipo de ditaduras quer na sua querela com Sartre.

Colocou sempre o homem à frente de qualquer filosofia, associou o conceito de revolta a uma justa medida e combateu o niilismo básico e castrador do conceito de revolta pura.

" Je ne crois pas assez à la raison pour croire à un système.Ce qui m´intéresse, c´est de savoir comment il faut se conduire quand on ne croit ni en Dieu ni en la raison. » Essais

Homem de bom senso, humanista, céptico e equilibrado, Albert Camus é o "protótipo" do homem moderno , sensível e amante da natureza e do mundo.

Camus desconfiou sempre do radicalismo político e apesar de "engagé" nunca comprometeu uma amizade e o diálogo aos assaltos do ódio ideológico.

Em " O Homem Revoltado" coloca em causa todo o artifício niilista e de como a revolta absoluta poderá ou não ser legítima.

Camus demonstra-nos que o Homem não vive de ódios e de lutas, não morre sempre com as armas na mão. Posição corajosa no contexto panfletário existencialista. Camus orienta para a História os exemplos para o seu pensamento; avança com conceitos inovadores para a época, como a valorização da beleza, da paixão, o amor dos seres e a felicidade.

Ao contrário de Sartre, que fazia do ódio profissão de fé, Camus defendia a amizade como valor quase absoluto e como tal bem a preservar e considerando que deveriam haver limites para as querelas ideológicas.

E foi em resultado da publicação de "O Homem revoltado" que se inicia a querela ideológica que marcaria os anos cinquenta e toda a segunda metade do séc. XX. Sartre inicia um diálogo, belo por vezes, mas que acaba por elevar e justificar todo o pensamento de Camus.

Camus antecipou a critica ideológica e filosófica contra o comunismo e contra a revolução, com uma abordagem totalmente anti- totalitarista; não hesita em pegar em autores como Lautréamont para justificar o seu pensamento.

Muitas das suas ideias são precursoras de um pensamento mais próximo do séc. XXI. Justa medida, equilíbrio, humanidade e bom senso são palavras de um léxico actual e que nos anos cinquenta eram consideradas pelos radicais como virtudes burguesas.

Aliás todos estes conceitos só seriam recuperados por Milan Kundera em plenos anos oitenta quando faz uma análise da revolta de Praga como uma revolta de moderados cépticos post-revolucionários: uma revolta de moderados, verdadeiro pecado capital para os intelectuais radicais.

Muito mais do que uma crítica a regimes ou doutrinas totalitárias todos estes conceitos são a génese de um pensamento e de uma filosofia da modernidade.

A coragem referida anteriormente é de sublinhar já que o contexto dos dois blocos políticos e da guerra fria tornava a esquerda e os seus radicais dominantes no contexto intelectual ocidental.

Mas Camus considerava-se de esquerda, " malgré moi et malgré elle" mas de uma esquerda que hoje poderíamos como humanista e despreconceituada.

Albert Camus foi muito longe em " O Homem Revoltado" na antecipação de um pensamento dessacralizante da política. Vai recuperar o regicídio de Luís XVI como exemplo de um assassínio de um homem bom mas que é assassinado em função do que representa. É a abstracção pura ao serviço do pensamento revolucionário. Considerava Camus que estávamos perante um momento chave da história, em que o sagrado deixava o campo do religioso e invadia o campo político. Recusa assim definitivamente os radicalismos e sai de um certo pensamento maniqueísta deleitante e reinante.

Nascido equidistante "da miséria absoluta e do sol abrasador" foi como que obrigado ao "engagement" na defesa do que nunca teve por direito e por opção. Mas Camus tinha mais: tinha o mundo e a sua gratitude, a afectividade, os sentimentos, a condição humana revisitada em plena renovação. A esperança como futuro, o futuro como esperança.

"La pensée de Midi" é assim a definição ou redefinição de Camus do pensamento clássico greco-mediterranico, nascido do sol e do mar, contraponto a um pensamento do norte da Europa, sombrio e personificador do nada e do mal.

O mundo pensado por Camus é baseado no amor pela vida que nos faça esquecer o desespero da condição humana, o absurdo de viver: a verdadeira tese da felicidade.

" Um homem é sempre presa das suas verdades. » O Mito de Sísifo

Um raciocínio absurdo

Albert Camus sempre teve especial apetência para ser artista em vez de filósofo. A sua capacidade de adaptação da forma ao sujeito foi muito importante na divulgação e no reconhecimento quer da sua obra, quer do seu pensamento.

De 1938 a 1941 Camus escreverá três obras que marcarão todo o seu percurso enquanto pensador: um ensaio, " O mito de Sísifo", um romance " O Estrangeiro" e uma peça de teatro "Calígula". Diversificando as formas, tentava atingir o essencial: o pensamento do absurdo.

" O divórcio entre o Homem e a sua vida, entre o actor e o seu cenário, é que é verdadeiramente o sentimento do absurdo"

O Mito de Sísifo

Muitos criticaram que "O Estrangeiro" foi sempre lido à luz do "O mito de Sísifo". Camus percebeu desde cedo que a melhor maneira de ser filósofo era de escrever romances, espécie de álbum de imagens do pensamento filosófico.

Será que os jurados tinham ou não razão em condenar Mersault à pena capital? Para muitos este é o grande poder de ilusão de "O Estrangeiro" comparável ao génio de Flaubert ao colocar o leitor a favor ou contra Emma Bovary.

" Ce que attire beaucoup de gens vers le roman c´est que apparemment c´est un genre qui n´a pas de style.En fait il exige le style le plus difficile, celui qui se soumet tout entier à l´objet.On peut ainsi imaginer un auteur écrivant chacun de ses romans dans un style différent » Carnets II

No final dos anos quarenta e início dos cinquenta, Camus frequentava com Sartre e Simone os cafés de St.Germain-des-Prés, nomeadamente o "Flore" e o "Deux Magots". Os ignorantes e distraídos confundiam Camus como um simples seguidor de Sartre e do seu movimento existencialista.

Preferia testemunhar e exemplificar a "sensibilidade absurda" em vez de teorizar sobre uma "teoria do absurdo".

As suas ideias políticas são hoje verdades inalienáveis no nosso dia-a-dia. Todos nós concordamos que a servidão não é maneira de levar o Homem a sentir-se feliz.

O acreditar no devir de um mundo melhor sempre foi condenado pela esquerda dogmática.

Camus tanto criticava os métodos do General Franco em Espanha, como a ditadura Estalinista. Esta parece-nos hoje, uma atitude óbvia, mas tomar uma posição destas naquela época era demonstrador não só de coragem como de um carácter forte. Denunciou sempre a sombra e o mal, em contraponto ao bem e ao sol.


As palavras-chave de Albert Camus

O Absurdo

O sentimento do absurdo nasce no homem na sua incapacidade de se interrogar sobre a presença do próprio mundo e quando não obtém nenhuma resposta.Resta-lhe apenas assumir a sua condição absurda, tal como Sísifo que transportava repetitivamente e sem parar um enorme rochedo até ao cume da montanha e que de cada vez, este rolava até à base. Esta condição absurda, a condição humana, não impedia Sísifo de ser feliz e não impede o Homem de ser feliz. Do absurdo ao nada, e daí ao niilismo militante é apenas um passo.O conceito de Absurdo foi também utilizado pelos niilistas para justificar assassínios e a morte, o que deixou Camus escandalizado.

A Beleza

Os Gregos sempre viveram rodeados da beleza. Esta servia muitas vezes de código moral.Camus defendia um retorno à beleza, afastada do Homem por esses tempos.Afastava-se assim de um certo pensamento moderno defendendo que a beleza seria a justiça perfeita.

A beleza é necessária para o Homem de acção e para o criador, numa vontade de equilíbrio determinadora de um bom senso. Defendia a estética clássica como o cânone de beleza, como a dominação de todas as paixões.

O Sol

Quando perguntam a Mersault por que razão tinha cometido o assassínio, este responde que tinha sido por causa do sol. O seu próprio nome ,Meurt-Solei, predestinava-o já a um destino trágico. É um signo em toda a obra de Camus, de uma felicidade que caminha lado a lado com a tragédia.


Bibliografia

CAMUS, Albert; (1971):"A Morte Feliz", Livros do Brasil, Lisboa

CAMUS, Albert; (S\D):"O Mito de Sísifo", LBL Enciclopédia, Livros do Brasil, Lisboa

CAMUS,Albert;(1951):"L´homme révolté", Éditions Gallimard,Paris

Le magazine littéraire; (mai 2006): "Albert Camus: penser la révolte"



















quarta-feira, 23 de maio de 2007

Uma visão crítica do crescimento

« A linguagem política serve para tornar verosímeis as mentiras e respeitáveis os assassinatos, e para dar uma aparência de solidez ao que não é senão vento»

George Orwell

Vivemos obcecados pelo crescimento. Quer seja económico, social ou mesmo pessoal, o crescimento domina os nossos dias numa espiral embriagante.

Fazem-nos crer que, se não crescermos, não existimos e se não competirmos, não sobrevivemos.

Arrebanhados, empurram-nos para a frente, contaminados pela febre consumista na procura de uma salvação perpétua e sem sentido.

As novas elites transnacionais, as mesmas que controlam os gigantescos fluxos de capitais, exigem a todos, indivíduos e instituições, que andem para a frente e que sigam o movimento, esse movimento da globalização, alter-ego do capitalismo.

Uma visão crítica do crescimento

A mundialização técnico-mercantil necessita do crescimento perpétuo sem se preocupar com o devir, sem questionar a limitação dos recursos, sem limitações ambientais ou sociais.

Para os detentores dos fluxos de capitais são as mais-valias que interessam e tudo o que limitar o seu crescimento ilimitado terá tendência a diluir-se no meio desta febre global, neste contínuo andar para a frente, neste "para frentismo" (bougisme) atroz.

Não nego os benefícios que os diversos booms de crescimento, ao longo dos últimos 150 anos, proporcionaram à espécie humana níveis de bem-estar e evolução nunca antes atingidos.

Mas, e pela primeira vez na nossa curta existência enquanto habitantes deste planeta, estamos perante a escassez e a penúria de recursos, perante um verdadeiro desastre ambiental à escala global e perante a desigualdade exponencial entre ricos e pobres, quer a nível de países quer a nível interno, dentro desses mesmos países. Aliás esta desigualdade já se tornou emblemática e identificadora das políticas liberalistas sem regras, que pululam em quase todas as nações, independentemente do seu posicionamento político.

Modernizar continuamente e consumir perpetuamente são estes os dois mandamentos da política mundializadora global. Comunicar cada vez mais e mais depressa, como se, se não o fizéssemos não existíssemos. Fazer trocas comerciais com cada vez maior rentabilidade mesmo que, para isso não sejam respeitadas regras ambientais e sociais.

Resistir é preciso, resistir é possível

É necessário cada vez mais, definir uma postura de resistência que nos faça acordar da letargia contagiante que apenas beneficia quem domina.

Devemos aprofundar as estruturas democráticas e envolvermo-nos mais em organizações cívicas que nos possam efectivamente defender.

Reciclar e reutilizar, pensar e agir. Ser activo e acreditar que, com a acção e postura individual se pode mudar, que podemos mudar e que podemos servir de exemplo.

Existe esperança e devemos combater o imobilismo e melancolia que nos incutem diariamente.

" Mas o que é duro é o aprumo dessa boa gente, a segurança que sentem na asneira! São barulhentos como os caixotes grandes de que se servem; a sonoridade vem de serem vazios »

Gustave Flaubert

É o domínio absoluto da sociedade pelo "económico". Todas as vertentes de análise, em todos os sectores são vertentes economicistas.

O movimento perpétuo da globalização é por vezes contraditório, na sua essência e na sua prática já que, em contraponto a uma uniformização real acabamos por fragmentar a mesma sociedade que queremos uniforme, com base em desigualdades imensas e nunca antes registadas.

Estamos assim perante uma verdadeira religião do progresso que, supostamente deve ser automático e necessário.

Um outro mundo é possível, uma outra realidade é necessária"

"Tudo é relativo, eis o único princípio absoluto ! »

Auguste Comte

Bibliografia

TAGUIEFF, Pierre André; (2002): "Resistir ao para frentismo", Campo da Comunicação, Lisboa


















domingo, 20 de maio de 2007

“Un amour de Swann”

« La vraie vie c´est la littérature»

Marcel Proust


O nascimento de uma vocação, a de escritor, é o "leitmotiv" do romance de Proust " À la recherche du temps perdu" (1913). É o verdadeiro romance dos romances em que somos levados a flutuar por mais de 7 volumes e 1000 páginas de puro encanto, num verdadeiro hino à arte e à vida.

A literatura assume-se assim como verdadeira fonte de vida, essência e génese, num percurso maravilhoso e ao mesmo tempo perturbante.

Por caminhos que entram numa verdadeira linguagem poética, Marcel Proust assume-se como um escritor filósofo, mágico por vezes. Em "À la recherche." Extrai-se um sentido, o verdadeiro sentido de uma vida, da nossa vida.

Prova-nos Proust que o "Eu profundo" está sempre para além das aparências, por muito mundanas que possam parecer. O "Je" do romance é mais do que um "Eu" ou mais do que Marcel ou Swann, numa imanência individual característica de toda a obra.

A visão da realidade é subjectiva e depende do ponto de vista e da impressão que nos causa no exacto espaço-tempo da perspectiva, abrindo caminho para percepções múltiplas e complexas, do que nós poderemos pensar que seja uma única e só realidade. É definido assim o princípio do ponto de vista. A realidade apenas existe através do "Eu".

Estamos assim perante conceitos metafísicos e profundamente escatológicos."À la recherche" é essencialmente uma procura de uma verdade, que também é a nossa verdade, a de uma busca de um devir e de uma essência filosófica que nos sustente perante as incertezas do desconhecimento.

Esta procura, eminentemente filosófica corresponde a uma doutrina estética específica, definidora da verdadeira essência da definição do que é a arte.

Arte e vida recuperados em movimentos transcendentes e multiplicadores biunívocos.

Imaginado como um díptico " temps perdu\temps retrouvé" " À la recherche" define-se como para além de um romance, como um verdadeiro estudo filosófico, um verdadeiro ensaio de como viver a vida como uma obra de arte, ou de como a arte transcende a vida.

Sendo o tempo, monumento com sede eminentemente pessoal, o seu deslizar e as memórias desse tempo passado são experiencias únicas. Este é outro dos temas centrais de "À la recherche" numa exploração e descoberta das memórias voluntárias e involuntárias. Temos assim o tempo como parte integrante do mundo e de como a sua passagem é algo íntimo e pessoal (Bergson, Henry 1859-1941)

Recensão Crítica

"Du côté de chez Swann" – Marcel Proust

Um estudo sobre o amor em " Un amour de Swann"

"Un amour de Swann" faz parte do primeiro livro de "À la recherche du temps perdu", com o título de « Du côté de chez Swann". Verdadeira mise en abîme,"Un amour de Swann" é uma história dentro da história com uma estrutura clássica. Uma verdadeira analepse de 15 anos na estrutura narrativa de " Du côté de chez Swann". Esta história chega ao narrador pela versão do seu avô.

No entanto, a continuação de "À la recherche" irá mostrar-nos que realmente Swann perdeu tempo com Odette.

A busca de um tempo perdido, que uma vez passado não se pode mais recuperar.

Charles Swann é o alter-ego do narrador, do "Je", de Marcel, do herói proustiano. Swann é um verdadeiro esteta diletante, amante da arte e frequentador dos salões e da sociedade parisiense do último quartel do século XIX.

Swann apaixona-se por Odette, rapariga mundana e que não é o seu género.Swann conhece-a e esta introdu-lo no clã dos Verdurin.É nesse meio da burguesia muito rica que, através de uma ilusão o amor de Swann por Odette começa a surgir.Foi uma verdadeira idolatração estética. Swann associa a um pequeno excerto de uma sonata de Vinteuil ouvida em sua companhia, aos seus momentos de felicidade junto de Odette; também por acaso ele descobre a semelhança de Odette com um personagem de um fresco de Botticelli da Capela Sistina,Shéphora.. Temos assim o amor nascente ligado à obra de arte numa espécie de "coup de foudre" virtual através da arte.

Verificamos então a existência de uma ligação estreita entre amor e a arte num processo contínuo até final de À la recherche ".

Odette era uma mulher de um nível inferior ao de Swann (assim como os Verdurin) mas este facto, não obstou minimamente ao envolvimento de Swann.

Este amor conduziu-o a um sofrimento imenso do qual a cura foi penosa e muito difícil.

Swann foi condicionado por este amor em todos os aspectos da vida, quase que o deixando na loucura.

Como esteta que era e como amante da arte e o facto de ele associar as duas peças de arte a Odette demonstra o quanto Swann necessitou de se justificar perante si próprio num processo de identificação do seu novo amor com uma ou com várias obras de arte. Inicialmente indiferente a uma mulher daquele tipo, Swann vai transformar Odette no objecto do seu amor numa adjectivação de aproximação entre a obra-prima e o ser amado. Numa confusão interior Swann associa-a permanentemente a múltiplas representações estéticas e artísticas numa indivisível realidade.

Swann começa a fazer visitas nocturnas a Odette, tornando- se seu amante.Swann vive uma verdadeira paixão e culto por Odette, numa mistura entre realidade e obra-prima.

Temos assim um amor baseado num erro de percepção e sobre a idealização da mulher amada. Através do fresco de Botticelli, Swann associa e identifica Odette com Shéphora.

Swann, esteta por natureza, procura constantemente na realidade, equivalentes às suas obras de arte preferidas, contribuindo para a falta de capacidade em distinguir a Odette real a Odette ideal e imaginária.

Somos assim conduzidos a uma verdadeira cristalização do amor, expressão primeiramente usada por Stendhal e desenvolvida por Ovidio na sua "Arte de Amar"

"..La cristallisation auréole l´être aimé de mille perfections jusqu`a faire disparaître ses imperfections »

É o domínio absoluto da arte e dos valores estéticos em contraponto com o parco controlo sobre a vida e as coisas reais.

O seu interesse por Odette vai em crescendo até ao momento da posse carnal, o curioso " faire catleya", metáfora floral baseada nas raríssimas orquídeas e que para os dois amantes não é mais do que "faire l´amour".

Swann fica cego e nada mais vê do que Odette; vive para ela numa paixão cega e arrebatadora.

Está pois Swann, e depois de expostas estas premissas, condenado ao sofrimento.Inicia-se um processo de desconfiança e ciúme que o leva por caminhos tortuosos e a um declínio do amor. A espiral de ciúmes é como que uma procura total da verdade, da vida presente e passada de Odete.

No entanto e neste limbo, Swann comporta-se por vezes como se Odette fosse virtuosa e outras vezes como se fosse uma simples cortesã. É a verdadeira desmistificação do amor, como o imaginamos, emblemático e referencial.

É nesta procura da verdade que o narrador (Swann, herói, Je, Marcel) constrói a sua obra de arte, através da sua vida, através de um tempo perdido, etapa maior nesta sua caminhada para a obra-prima.

Amor e ciúme numa espiral de catarse que leva ao espiamento de Swann numa etapa que é necessário ultrapassar para continuar o caminho até à criação suprema.

A concepção proustiana do amor é essencialmente negativa pois a posse de um outro ser nunca acontece e por isso o ciúme e o sofrimento acabam por dar entrada em cena.

O texto torna-se quase perfeito numa circularidade exemplar e ao mesmo tempo óbvia:

Nascimento e morte de um amor, referencial para todo o devir do romance.

Para existir amor, o amor proustiano, não é importante o "Ser amado" e se ele nos agrada ou não, o que é importante é a busca e a construção intelectual.

Proust conduz-nos ao conceito de arte como transposição da realidade, conducente ao modelo, à ideia e à essência.

Vemos também que o extracto da sonata de Vinteuil ao ser despoletadora de memórias involuntárias de um tempo feliz, o tempo das pequenas graças com Odette, não terá uma existência quase material mesmo humana.

São os signos na obra de Proust tão bem analisados por G.Deleuze: os signos mundanos, como tempo que perdemos, os signos da paixão, como o tempo perdido, os signos sensíveis, aqueles que nos dão o tempo já perdido e simultaneamente uma imagem da eternidade e os signos da arte, que nos dão a conhecer o tempo reencontrado, o tempo original, o absoluto que incorpora todos os outros.

O amor é assim prisão e sofrimento nesta busca incessante pela criação absoluta da obra de arte suprema, a vida.

"Dire que j´ai gâché des années de ma vie, que j´ai voulu mourir, que j´ai eu mon plus grand amour, pour une femme qui ne me plaisait pas, qui n´était pas mon genre ! »


Bibliografia


Bibliografia de estudo

PROUST,Marcel;(1988):"Du côté de chez Swann", Éditions Gallimard, Paris


URL :

PIAZZA,Luciana ;S\D: « Le rapport entre l´art et l´amour dans Un amour de Swann » ;http://victorian.fortunecity.com/holbein/42/poems2.html,visitado em 19/05/2007


Livros:

GROS,Bernard;(1981): "Profil d´une oeuvre: À la recherche du temps perdu, Marcel Proust",Éditions Hatier,Paris

COMPAGNON, Antoine,préface in: PROUST, Marcel;(1988):"Du côté de chez Swann", Éditions Gallimard,Paris,pp I-XXXV




















domingo, 11 de fevereiro de 2007

Arthur Rimbaud - O futuro como objecto poético

Recensão Crítica

“The Time of the Assassins – a study of Rimbaud by Henry Miller”
1962, New Directions Books, New York


“O meu destino depende deste livro”, terá dito Arthur Rimbaud enquanto escrevia o seu “nigger book” (Une Saison en Enfer).Esta afirmação, tão levianamente profunda, moldou o próprio destino e a própria essência da linguagem poética.

“What Rimbaud did for language, and not merely for poetry, is only beginning to be understood. And it’s more by readers than writers”

O poeta como oráculo de uma determinada sociedade em uma determinada época sempre foi uma imagem recorrente da literatura e mesmo da civilização humana. As palavras de Rimbaud tornaram-se assim e sem mesmo ele se dar conta, num presságio societário incorporado numa tragicidade individual, resultado do expoente civilizacional a que chegámos.
Teremos nós, e desde a partida, o nosso destino traçado ou somos mestres dele próprio?
Édipo ao sair de Corinto, ao ouvir as revelações do oráculo, não fez mais que tentar fugir do destino que. o esperava em Tebas. Não será que, a partir de determinado momento todos nós nos apercebemos do nosso destino?
Penso e sinto que sim.
A renúncia ao nosso mundo civilizado pela antevisão de um destino trágico é algo de problemático, pois teremos sempre a tendência para a redefinição desse mesmo destino e para a reconstrução do mundo e da sociedade.
Rimbaud renunciou a um mundo em apogeu civilizacional; considerava-se no nadir desse mundo.

“The future always has and always will belong to – the poet.”

A abordagem que Henry Miller faz do trabalho de Rimbaud é acima de tudo um trabalho de compilação de exemplos de vida entre os dois autores e de como as suas visões do mundo são (ou eram) idênticas.
Numa linguagem directa e sem rodeios lexicais, Henry Miller apresenta-nos Rimbaud em toda a sua plenitude, através do seu percurso de vida e poético. Esta obra é antes de mais uma apresentação formal de Rimbaud ao público norte-americano.
Rimbaud foi e será sempre o futuro apesar de passado. Ainda hoje tentamos subir uma torre de Babel à procura da essência da sua “ proto-linguagem”, a essência de uma mensagem liberta de espartilhos de significantes linguísticos e de significados civilizacionais.

“The future is all his, even though there be no future”

Na primeira parte do livro, Henry Miller transporta-nos pelos caminhos da sua descoberta pessoal da obra e do génio de Rimbaud; fica espantado com a semelhança e emaranhado de coincidências (também diferenças) entre as suas vidas pessoais e literárias.
Ambos são assumidamente elementos fora-de-tempo, perturbadores e ao mesmo tempo construtores de um futuro que ainda não se vislumbra.
“Voyants ou voyous?”, esta sempre foi a questão que se coloca ao analisarmos algo que nos perturba e/ou choca. Será porque não estamos preparados e não entendemos ou porque enquanto leitores e receptores, não somos ainda o modelo capaz de receber. Estamos então numa análise diacrónica que, no caso particular de Rimbaud nos empurra para a intemporalidade. Os terrenos que sondamos são os que só a poesia pode percorrer.
Nesta sociedade materialmente científica, ignoramos cada vez mais a voz do futuro, o verdadeiro oráculo, a voz do poeta e da beleza.Em vez disso damos mais atenção à voz do cientista e do horrível. Será então a poesia apenas uma anomalia?
Que fazer perante esta aberração?
Acreditar e acreditar sempre.
A grande crise existencial de Rimbaud foi quando tinha dezoito anos e a partir daí nada mais escreveu, isolando-se da civilização e do mundo num deserto inóspito até morrer aos 37 anos.
Henry Miller teve a sua crise existencial aos 37 anos onde envereda pela produção literária. Os paralelos que Henry Miller faz são imensos, entre a sua vida e os seus sentimentos e os de Rimbaud.
Esta primeira parte da obra contribui muito para valorizar o percurso de vida de Rimbaud e a torná-lo emblemático e arquétipo do rebelde e revoltado, tão utilizado pelos movimentos de jovens pós anos cinquenta.
Henry Miller sublinha também o calvário da sua viagem de regresso da Etiópia, já muito doente e com o seu destino verdadeiramente traçado.
Outro conceito referido pelo autor é a anti literalidade latente, quer em Rimbaud quer nele próprio. Após anos de estudo e de leituras que os absorveram e prepararam, foram capazes de dizer não aos cânones e enfrentar os dogmas de uma sociedade hipócrita.
Consideramos assim que o demónio tomou conta da literatura e da poesia? Criámos monstros ou somos nós o verdadeiro Monstro.
Rimbaud caminhou sozinho por toda a Europa, esfomeado, durante dois anos numa experiência única que muito contribuiu para a sua visão do mundo e da particularidade e singularidade das coisas simples.
Henry Miller também caminhou sozinho entre Manhattan e Brooklyn, esfomeado, numa experiência também única e que contribuiu definitivamente para o marcar no seu percurso literário.
O regresso à loucura é bem mais assertivo do que o regresso dos loucos. Os loucos conduzem-nos neste caminho sem retorno de uma economicidade imposta numa desordem monstruosa que cria monstros a cada minuto numa desregulação epígonal.
Eu vos saúdo, Miller e Rimbaud. Em tempo identificaram o demónio e escolheram o Céu.
Viver tudo de todas as maneiras foi o que fizeram estes dois sábios da existência.
Vivemos numa era em que definitivamente temos de aceitar o Demónio como símbolo da pequenez existencial dos teledependentes, escravos absolutos de uma máquina castradora.

The world does not want originality; it wants conformity, slaves, and more slaves.”

Sou ou somos renegados nesta recusa intelectual de um destino...trágico? Estamos, como disse Miller, renunciar a toda uma civilização e tentar construir uma nova alternativa ou destruímo-la com as nossas próprias mãos?
Considero que a destruição se aproxima, num acto de reequilíbrio necessário, num refluxo de energia. É a própria Física que nos explica que situações de desequilíbrio não resistem muito tempo.
Vem aí “ Une Saison en Enfer” da nossa civilização, que faz muito tempo renunciou à esperança do Bem e do Belo, às virtudes do amor e da sua palavra, à Poesia.
Miller estabelece raciocínios de comparação entre a traição da sociedade perante o poeta e o acto de renúncia do próprio Rimbaud aos dezoito anos. Esta comparação é extremada e datada ao lançamento da Bomba Atómica, facto que ao tempo (1955) era de per si símbolo da chegada de tempos de destruição. E não será que tem razão? Não viveremos todos na ressaca de um progresso científico que nos renega como seres pensantes e modificadores da realidade?
Acredito que a verdadeira Estação no Inferno já chegou e que, como diz Miller o mundo se tornou imune ao discurso poético e vai ignorando a própria existência do Poeta.
Ele próprio, o Poeta, perdeu a fé em si e na sua missão.

“If the mission of poetry is to awaken, we ought to have been awakened long ago. Some have been awakened, there is no denying that. But now all men have to be awakened- and immediately-or we perish. But man will never perish, depend on
that. It is a culture, a civilization, a way of life which will perish. When these dead awaken, as they will, poetry will be the very stuff of life. We can afford to lose the poet if we are to preserve poetry itself.”

O elemento que falta em Rimbaud é definitivamente a falta de fé – em Deus, no Homem e na Arte.
Somos assim renegados numa civilização já renegada à muito. O regresso ao Bem e ao Belo é sempre possível. No fim, e como em tudo, o que resta somos nós, o Ser Humano.
Esta é a verdadeira consciência do poeta e do artista em geral e a verdadeira essência da modernidade.Rimbaud iniciou a modernidade ao abrir novas portas de compreensão de uma realidade cada vez mais complexa e distante do indivíduo.
“éternité,infini,charité,solitude,angoisse,lumiére,aube,soleil,amour,beauté,inoui,pitié, démon, ange, ivresse, paradis, enfer »
Estas palavras foram de uma maneira obsessiva utilizadas por Rimbaud.
Henry Miller pega então no conceito de liberdade e associa-o à diferenciação individual numa civilização que tende a fazer de todos e cada um igual. Liberdade de preservação da individualidade, este é o verdadeiro caminho para a Salvação referida tantas vezes por Rimbaud.
A ilusão do ser e do conhecimento fizeram de Rimbaud a essência do poeta, sendo hoje comummente aceite como o poeta mais lido e mais actual de todos os tempos. Terrível ilusão esta que nos envolve como um barco bêbado que transporta a mensagem para o grande oceano do conhecimento.
Rimbaud é isolada por Miller do movimento simbolista e mesmo dos surrealistas que tanto o citaram. Os símbolos de Rimbaud eram os do espírito, gravados em sangue e angústia. A sua linguagem era a do espírito. A modernidade tinha começado nesse momento.

“ Il faut être absolument moderne ! »

Curiosa é também a comparação que Miller faz de Rimbaud com Van Gogh em termos de coragem, energia e perseverança. “ As suas vidas estão entre as mais tristes de que há registo nos tempos modernos.

“The song of creation springs from the ruins of earthly endeavor.The outer man dies away in order to reveal the golden bird which is winging its way toward divinity”

No inicio da segunda parte desta obra, Henry Miller, enfatiza o carácter rebelde de Rimbaud,

“ni Maître ni Dieu”
E o facto de em plena efervescência da vida e em pleno culminar da criação ele ter desistido. A resposta às questões que o seu percurso de vida nos coloca pode estar na frase enigmática “ Je est un autre”
Que outro ele é que não ele mesmo? Que outro ele não é?
O corte com o mundo é feito de forma espartana e com o recurso a uma disciplina que já vinha de trás. Que Rimbaud é então este, senão o mesmo que não outro que provavelmente nunca existiu.
Outras vidas que existiram ou existem, outras “ Saison en Enfer” e outras “Illuminations”. O Inferno e o Paraíso são aqui e tudo depende de como encaramos e pensamos a realidade.

“If you believe you are in Hell, you are. And life, for the modern man, has become an eternal Hell for the simple reason that he has lost all hope in attaining Paradise”

Entramos, nós e Miller, na(s) grandiosas(s) “Lettres du voyant” . A segunda, dirigida a Paul Demeny é a Poesia em estado puro, um manual para gerações futuras, o objecto de arte por excelência.
A linguagem é a ideia pensada e sentida. A chave dessa linguagem é o símbolo que o poeta enquanto criador, supremo, artístico, possui.
Criação artística e experiência são em Rimbaud simultâneas, num acto contínuo que o coloca num patamar superior.
Questiona-se Miller porque adora ele Rimbaud acima de todo e qualquer poeta. Em Rimbaud, Miller vê-se como se fosse ao espelho (não nos veremos também?). Não reconhecemos na linguagem de Rimbaud o nosso próprio destino, o devir da própria Humanidade?
Rimbaud ganhou espaço no Paraíso, porque o mereceu, porque o construiu.

O verdadeiro dilema do poeta/artista é assim analisado a um pormenor que nos conduz ao nosso verdadeiro dilema enquanto seres pensantes.

“ Ce n´est pas un rêve d´un hachischin, c´est le rêve d´un voyant »


Referências em língua inglesa, de Henry Miller
Referências em língua francesa, de Arthur Rimbaud

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Voici le temps des assassins

« Voici le temps des assassins »
Matinée d´Ivresse, in Illuminations

Num sequestro recente no Brasil, o assunto principal aquando da libertação do refém foi a literatura e de como ela foi essencial para que a loucura não invadisse o quotidiano dos longos 53 dias de cativeiro e isolamento.Entre os livros que o ajudaram na resistência psicológica estava uma colectânea de poemas de Rimbaud, entre os quais “ Matinée d´Ivresse”.
Eis o tempo dos assassinos?


A literatura assume-se sempre por caminhos assertivos, em harmonia com valores conservadores ou em situar-se como instrumento num combate de libertação.
“O valor da literatura é essencialmente interrogativo.Essa interrogação não é a pergunta das perguntas:qual o sentido do mundo?” (1966, Roland Barthes,in Critica e Verdade)
Um mundo sem sentido?Que sentido para este mundo? Eis o mundo;existe sentido nele?A literatura possui assim a capacidade de nos fazer interrogar sobre a realidade e sobre nós. Perguntas que nos fazem pensar e olhar para dentro numa atitude nobre de engrandecimento interior.
Resisto à loucura deste cativeiro urbano pelos livros e pelas perguntas com que me atrevo após.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Consumo da arte

Recensão Crítica
Impróprio para consumo em “A Anomalia Poética” de Silvina Rodrigues Lopes,
Edições Vendaval, 2005.



Consumo da arte

Toda a criação artistíca é uma tomada de posição, “toda a arte [...] é politicamente eficiente, quer o artista queira quer não”.(1)
“Impróprio para consumo” é um ensaio inserido no livro “A Anomalia Poética”, onde se analisam as problemáticas principais dos campos literário e artistíco.
Na primeira parte do artigo, Silvina Rodrigues Lopes faz uma análise muito interessante do principio gerador da própria “arte”, isto é – o desejo. O desejo de fazer, agir e criar. Com esta premissa somos conduzidos através de linhas de uma prosa intensa, pelos caminhos da análise da arte e do movimento artistíco.
A partir daqui são levantadas pela autora uma série de questões, directamente ligadas com a produção artistíca e com o objectivo da própria “arte”. Terá a “arte” como objectivo o alcance do “ideal de perfeição”? Alcançar o Belo ou o Bem?
Silvina Rodrigues Lopes apresenta-nos uma análise cuidadosa com base nos rituais da própria sociedade, isto é, considera que a “arte” está sempre balizada pelos limites impostos pela Lei, pela moral e pelos do [ bom ou mau] gosto.
A demarcação/não demarcação dos referidos limites impõem à “arte” caracteristícas identidárias/de identidade, nas quais a comunidade e a sociedade em geral se espelham.
A conclusão que podemos tirar é que a “arte” não é uma esfera autónoma transcendental, quer ela seja puramente decorativa, quer seja completamente contestatária; ela é aceite e reconhecida ou atacada e desacreditada. Por muito marginal que a “arte” possa ser há sempre limites a não ultrapassar. As revoluções ou rebeliões são aceites até um determinado ponto. O excesso também tem os seus limites.(2)
A dominação/controle do desejo criativo é assumido pela própria sociedade com vista “à anulação de qualquer movimento de fuga à sua universalidade”.
Consciente desta limitação a autora faz uma descrição minuciosa dos rituais de quebra, das
regulamentações / lei da comunidade, isto é faz uma analise da “festa”.
A “festa” como ritual de “libertação de energias sociais acumuladas”. Esta reflexão, pouco abrangente, leva-nos novamente ao cerne da questão artistíca – o desejo.
Entramos assim, na segunda parte do artigo onde Silvina Rodrigues Lopes analisa a relação de inter-dependência entre a criação artistíca/objecto artistíco e o poder.
A afirmação da “arte” pelo poder ou do poder ela “arte” é sempre uma questão que divide os produtores/consumidores do desejo. Nesta parte é também analisada a “arte” como forma de distinção e hierarquização social. O principio de utilidade/inutilidade da “arte” é assim colocado em permanente discussão. A dialéctica, ou melhor esta contradição foi amplamente explorada pelo “Dadaísmo” .
Este movimento intelectual, literário e estético de vanguarda dos anos 20 do século passado, abriu caminho a novas concepções de(a) “arte”. A autora descreve de uma maneira muito interessante os limites e os caminhos sinuosos da arte moderna/contemporânea.
Estamos assim perante noções tão extremas como as de “anti-arte” e “contra-arte”. Considera que estes movimentos são como que terapêuticos e “orientados para a alteração da relação com a arte fora de um circuito de privilégios demasiados estritos.”
A interpretação dos objectos do quotidiano pela “arte” conduz-nos ao chamado ready made retirando a esses mesmos objectos a função original, dando-lhes ao mesmo tempo uma outra função.
Diz a autora “este não é o nada mas aquilo que se apresenta no apagar das imagens e nos sentidos comuns, presente ou não-presente, porque não unificável – [...]”.
Sobre esta a polémica será interessante referenciar a disputa entre o artista contemporâneo de vanguarda M. Pinoncelli e toda a obra de Marcel Duchamp: mais uma vez M. Pinoncelli destruiu com o seu martelo a famosa “La Fontaine” (O urinol), no quadro da última exposição “Dada” do Centro de Exposições George Pompidou em Paris no dia 4 de Janeiro de 2006.
M. Pinoncelli declarou que devolvia “a sua dignidade ao objecto, vitima de uma alteração da sua utilização e mesmo da sua personalidade”.(3)
A partir da identificação/não identificação da arte e dos objectos produzidos pela própria realidade somos levados através do raciocínio da autora ao conceito da liberdade na sua vertente aristotélica e inevitalvemente à noção de acaso, de determinismo, expontaneidade e o cálculo.
Esta crítica foi, em França, analisada pela antropologia estrutural de Claude Lévi-Strauss “dirigida contra a concepção elitista da civilização e da arte que reinava sem partilha [...]. O hiatus entre a estrutura e o acontecimento,o sistema sincrónico e a história é total” .
Também para Levi-Strauss toda a forma de “arte” se explica integralmente pela sua função no sistema estrutural secundário da sociedade, todo o acto de discurso se reduz ao jogo de combinação dum sistema primário de signos, todo o sentimento e toda a individualização se decide dentro de um sistema anónimo e sem sujeito”. (4)
Após estas analises complexas, retoma a autora a problemática da subordinação/insoburdinação da arte/objecto de arte em relação às “instituições que impõem a conformação do desejo a um determinado modelo de relações de poder”.
Como dizia Lautréamont “a poesia deve ser feita por todos. Não por um”; estrapolando para a nossa sociedade virtualmente igualitária a poesia deverá ser feita por todos e para todos. Poesia aqui como “arte”.
Para evitar as concessões e escapar ao jogo de especulação e compromissos, o artista lúcido fiel à sua liberdade prefere manter-se à margem, mesmo com o risco da clandestinidade e do anónimato. Ser marginal, é um refúgio, mas um refúgio marginal, onde se reencontra, cruza, saúda, age em conjunto, cria, vive e respira. (5)
Ao examinar todas estas questões, Silvina Rodrigues Lopes leva-nos inevitavelmente para os conceitos estruturalistas: “Compreender a estrutura de um devir, a forma de uma força é perder o sentido, ganhando-o.”
Podemos acrescentar ao raciocínio da autora que essa força está sempre relacionada com a inscrição/não inscrição e de como ela é importante para a própria sociedade.
Mostrar ou não mostrar, ser ou não ser; não é a questão neste caso mas cada coisa é o que é (Shakespeare vs Alberto Caeiro).
Estamos assim no campo da “différance” como movimento produtor das diferenças de conceito, como elemento aglutinador das oposições estruturantes .
Assim, naturalmente, e após estas abordagens, entramos numa quarta parte do artigo em questão, em que a autora deliberadamente nos mergulha nas àguas profundas do enunciado.
Ao referir a crítica formalista parte para uma construção de uma teoria geral da “arte” em que e novamente, analisa a dicotomía da função/objectivo geral da “arte”: Arte Decorativa vs Arte Conceptual.
Trata-se aqui de dessacrelizar, escapar aos imperativos e aos efeitos hipnóticos do prazer da retina, isto é, às ortodóxias e ataraxías artísticas. Estamos assim perante a “arte” a sair do quadro e da galería, isto é, uma “arte” não “museificada”. Restringir a arte ao belo é abrir portas aos supostos canones artísticos eternos e fechar portas a toda uma multitude de expressões do possível.
Sendo “os objectos conceptualmente irrelevantes para a condição de arte” e tendo como base o raciocínio anterior (canone vs vanguarda) somos conduzidos para ao conceito de pós-modernismo, ou seja, para a introdução da arte/objecto de arte no mercado.
A autora elucida-nos claramente sobre o fechar de ciclo que o pós-modernismo nos conduziu e de comoo mercado como “identidade supra” assumiu a própria “arte”.
A “arte” como mercadoria especializada; estamos agora no presente em que o objecto do desejo passa a ser a “arte” como espelho da própria sociedade; é o eclético por excelência. Assume assim a autora uma posição crítica em relação ao consumo da arte enquanto bem transaccionável. Apesar disso nunca deixa de sublinhar o valor do marketing enquanto motor impulsionador da troca artística.
Evoca a autora na parte final do artigo os modelos e conceitos economicistas ligados à “arte” numa perspectiva puramente académica mas interessante.
Consideramos a conclusão como que um turbilhão de conceitos, todos eles individualmente válidos mas que em conjunto nos permitem alguma confusão.
Teorias de delimitação da “arte” em campos e processsos institucionais conferem à “arte” uma legitimação que pensamos ela não precisaría.
São homens e mulheres como nós que ao infrigirem estéticamente os conceitos pré-concebidos nos empurram radicalmente para a frente num movimento circular anti-glaciar e gerador da própria vida e existência enquanto entidades máximas e absolutas.

A arte está em nós.

Referências Bibliográficas:

1 Gérard Fromangor, Citado por Yves Helias e Alain Jouffroy, “Portrait idéologique de l’artiste fin de siécle”, in “Le Monde Diplomatique” Janeiro de 1990, páginas 22-23.
2 Fréderic Baillet e Philippe Liotard “De l’autonomie de la production artistique”, in Quasimodo nº5, Printemps 1998.
3 M. Pinoncelli e Duchamp: “Frappante charité”, in Le Monde edição on line, 06 de Janeiro de 2006.
4 H. R. Jauss “Por une esthétique de l reception”, Gallinard 1972, páginas 119-121.
5 Jean-Jackes Lebel e Arnaud Lanelle-Rojoux,in “Poésie direct”, Paris, Opus, International Edition, de 1994, pág. 65.